domingo, 12 de novembro de 2017

Aberturas

Estou agora obcecado pelas aberturas dos filmes. Aberturas são como as primeiras quinze páginas de um livro.

Durante os últimos três meses, eu tenho assistido a diversos OPENINGS, e não somente os assistindo, mas tentando encontrar diferenças entre o SCRIPT original e estas aberturas. É um exercício delicado e , estranhamente, prazeroso - espero aprender alguma coisa com isso, não é este o objetivo? Talvez seja, mas o mais interessante como sempre são as escolhas. De ontem para hoje, já vi CHINATOWN, KRAMMER vs KRAMMER e HANNAH AND HER SISTERS.


O engraçado disto tudo é a possibilidade de ler roteiros originais dos mais diversos sites que disponibilizam os textos e apurar o olhar para as escolhas dos diretores. Eu fico observando coisas bobas, como figurino e as ações dos atores. Em Hannah and her sisters eu estava observando se mantiveram as escolhas de Woody Allen pelas roupas e cores indicadas; até as músicas indicadas eu tento prestar atenção. Parece um exercício bobo, mas acabo percebendo, por exemplo, no caso do Woody as escolhas são mantidas à risca por ele se envolve diretamente nas filmagens, pois assinta tanto o roteiro como a direção. Bem diferente das escolhas do Roman Polanski em Chinatown que divergem em alguns pontos do roteiro do Robert Towne. Nada que mude substancialmente o roteiro, mas que ratifica aquele primado de que nem sempre o escrito prevalece sobre as imagens do diretor.

E é por isso que fico pensando nesta luta entre o texto e a imagem, exatamente por não ser um Woody Allen todas as minhas escolhas por luz, ou movimentação ou ângulo, mesmo que sutis e superficiais ou mesmo que sejam escolhas laboradas, poderão ser completamente ignoradas. E isto faz parte porque o roteirista pensa nas ações por meios de palavras e o diretor tem que dar vida aquilo. Mas será que não pensamos em trejeitos e soluções para algumas cenas, como se imaginássemos os atores em cena, não apenas mexendo as bocas?


Mas é mágico poder sentir que histórias enredam características que ganham corpo em pessoas que até imaginamos quem seja. Escrevemos sobre personagens e já a criamos no corpo e voz de atores que já conhecemos. Dedicamos até mesmo a silhueta de seus corpos vestindo as roupas nestes atores conhecidos. Eu ainda confesso que não vislumbrei estes atores e atrizes. Ainda escrevo genericamente, pensando que o ator possa se vestir da personagem. E aí confabulo com os meus sonhos. 

Estou num processo bem específico de escrever sobre uma personagem que já tem algumas páginas construídas, mas até ela se transformar num movie picture, terei repensado muito sua constituição física ou talvez não precise me preocupar.

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