A
produção não se encaminha no sentido do que esperaram de mim, por esta razão,
me angustio, me rebelo – até mesmo com a ênclise. Então, a literatura entra
como alívio imediato, me arranca da morte.
Meu desafio agora é criar um roteiro
de um filme, sendo que este desafio se inicia pelas escolhas. Estas escolhas
devem partir da descoberta ou da persecução das potencialidades plásticas,
narrativas e fílmicas dos textos que já escrevi. Senão vejamos o livro Adeus a Aleto, de 2009, tem uma
peculiaridade por se tratar de uma história que pode ser decupável; de certa
forma os fragmentos (frames)
são/estão já constituídos de pedaços narrativos de uma sequência, embora não
linear, de planos com enredos próprios. No entanto, é uma história difícil de
ser contada, creio eu, devido a esta não-linearidade – que não é boa porque necessita
de vai e vens, que comprometem o entendimento. Existe também uma dificuldade na
caracterização das personagens, dos livros do protagonista, que revivem ou
ganham vida e que não seriam completamente inteligíveis dentro do plot. Necessitar-se-ia de mais
descrições destas personagens que adentram a história principal, como fantasmas
metalinguísticos do personagem/narrador.
Já o outro livro Um Buquê improvisado, de 2012, tem
características parecidas, embora a não-linearidade seja mais sutil, porque é
própria da história em si. Mas a segunda parte funcionaria dentro do conjunto
narrativo, uma segunda história. Talvez fosse necessária uma adaptação que
excluísse esta segunda parte ou alterasse a dimensão dos fatos. No entanto, há
nesta urdidura uma complexa cadeia de caracterização das personagens que se
interrelacionam de forma tensa e completamente dramática, sendo que estes
elementos são importantes para a criação de uma trama bem próxima de uma
realidade – sem falar que há um quê de “baseado em fatos reais” neste plot. E analisando bem esta segunda
parte, quase desconexa, é possível vincular facilmente com os eventos da
primeira parte, trazendo a discussão da memória afetiva num evento de amnésia;
da observação; da patologia existentes na personagem Eloísa – não sei por que
citei o nome dela, esquecendo do protagonista, talvez por causa de sua
inclinação para o mal –, que protagoniza cenas bem interessantes do ponto de
vista cênico; a relação com a mãe, revelando, ou melhor, trazendo ao filme um
componente fantástico/mágico, vez que ela possuía alguns poderes sobre a vida
das coisas; além de tematizar a alienação parental promovida por Eloísa – de
novo ela. Porém, estas tantas peripécias/pontos de virada são elementos bem
próximos de uma confusão, mas nada que um bom flashback não consiga resolver.
Por outro lado, tanta riqueza de elementos fílmicos/cênicos pode produzir uma
história reflexiva (pedagógica) sobre os temas abordados no sentido de
estabelecer relações com as ações entre os personagens e as consequências.
O livro A teia de Germano também possui uma vocação fílmica, na qual a
trama pode envolver a protagonista numa busca existencial pela sua própria
essência – por que não das coisas? –, numa trilha em busca de encontrar seu
próprio genitor. Aqui também alguns elementos se repetem, mas novos recursos
podem ser utilizados, pois existem várias pequenas histórias que são narradas
pela personagem principal e que remontam ao lúdico e mágico mundo da infância –
momento no qual a história de uma baleia azul, que engole garrafas de sonhos,
poderia ser contada em forma de animação. Também pode se trabalhada uma
metalinguagem que se encerra na própria história do escritor pelo escritor, da
feitura do livro ao longo da história. Há um apelo emotivo na busca do fictício
personagem Germano e do protagonista Lúcio, enredando-se nesta afetividade
paterna quase inexistente, mas compreensível no sentido de dar a eles o real
significado de suas existências. Ponto importante para se trabalhar as inúmeras
recordações fotográficas e registros de missivas, enriquecendo a narrativa com
certa surpresa e emoção.
Neste exercício compulsório do
registro destas potencialidades do possível roteiro, há uma inexorável
obrigação de ser reler estes textos na sua íntegra, pois algumas partes
importantes podem passar despercebidas.
pausas
para leituras ou releituras
Pouco orçamento, privilégio aos
novos cineastas – obviamente aos novos roteiristas (como eu) –, experimentação,
inovação de linguagem. Bem, são tantas as exigências neste mundo novo que se
abre. Este registro aqui quase instantâneo obriga-me a repensar este desafio,
fazendo com que necessite de conversas com pessoas mais experientes. No
entanto, antecipei minha vontade de aprender com algumas leituras entre parte
teórica e roteiros de diversos filmes.
O desafio maior daquele que não savoir faire é aprender com os outros.
O outro livro, intitulado Urânios cabe perfeitamente nos
parâmetros – nem sei se devo usar esta terminologia – das exigências de um
roteiro de filme. Personagens, diálogos fortes, recursos cênicos, várias
perspectivas de câmeras, etc. A facilidade de adaptação é evidente no próprio
texto, embora a questão da não linearidade seja ainda uma característica a ser
superada – ou não. Os ambientes são reduzidos praticamente ao recinto de uma
casa, um apartamento; planos fechados e muitas conversas talvez aí residam um
grande roteiro. Além do polêmico tema da poliafetividade, ciúmes, amor,
traição, paixão, ódio, luto podem ser tratados a reboque pelas personagens.
Para
esses registros deixei de lado o livro Errorragia
– livro de contos – porque pensei num argumento mais extenso e não com base em
pequenos enredos, embora tenha-se pano pra manga para várias pequenas
histórias. Bons textos como Entrega para Jezebel, O travesseiro da rua; Deitado
na sarjeta, mas olhando para as estrelas. No entanto, quero me debruçar sobre
uma história com muitos recursos, pronta, da qual eu vá extraindo os excessos e
primaziando um centro, uma fonte de ideias pré-organizadas. Outro motivo de
preferir os formatos das grandes novelas que escrevi, e a ligação telúrica
estabelecida com estes textos; ainda mais porque muitos detalhes podem ser
resgatados em algum espaço de minha memória ou alguma informação perdida que
podia ser utilizada neste roteiro.
O engraçado é que estou agindo com
completa autonomia, diante do roteiro como se pudesse prescindir do olhar do
diretor.
pausa
para releituras/dúvidas
Eu estou com muita vontade de
roteirizar A teia de Germano.
Comecei a relê-lo, imaginando a primeira cena. Um plano fechado, focando os pés
cruzados de Lúcio sobre a mesa de centro. Umm barulho no banheiro causado por
uma pessoa – um corpo indefinido –, e a completa indiferença a esta presença.
Mas se inicia um diálogo despretensioso sobre o que ele está escrevendo.
O
plano se amplia. Vê-se Lúcio de peito nu. Ao fundo tudo opaco; a presença humana
não deve ter importância, por isso desnecessária saber o sexo dela. Inicia-se a
história:
INT
– APARTAMENTO-DIA
Lúcio
Ainda
de pés cruzados sobre a mesa, folheia o bloquinho de anotações.
– Estranha esta necessidade de
encontrar a essência das coisas!
Não
quer resposta. Apensas um pensamento alto.
– Fico pensando se eu esmagar uma
folhinha de hortelã, ela continuará tendo essência de folha de hortelã?
Mas estacionei neste pequeno começo.
Dar voz a outra pessoa soaria estranho ou faria com que saísse de uma zona de
conforto daquilo que havia escrito. Qual seria a cena posterior? Faltava-me
criar um vínculo ou mudaria para uma ideia diferente? Ou se continuasse ali,
como fazer para que a outra pessoa (gênero) falasse? E se falasse, certamente
mudaria o sentido do que havia planejado, vez que a interação com este gênero
redundaria em ações do protagonista. Mas por que o sexo desta pessoa
comprometeria a ideia inicial?
mais
uma pausa
Começo
sobrestado. Recorro à essência do texto. Tento enxergar a cena, ainda
insistindo num monólogo e esta pessoa tão importante que não pode ser revelada.
Ponto para se repensar este começo.
Pés
cruzados sobre a mesa. A câmera se concentra (foca) neste pequeno pedaço de
Lúcio. O ângulo próximo dos pés desfoca a imagem ao fundo. Um vulto é percebido
como se deslocasse sutilmente entre os dois cômodos.
INT
– APARTAMENTO-DIA
Lúcio
– Como encontrar e essência das coisas, senão
por elas mesmas?
Indiferença.
Lúcio continua seus pensamentos.
Lúcio
– Mas apenas com estas fotos e cartas
demoraria mais tempo para extrair a verdade sobre Erich.
Pensamento
alto. O ângulo permanece o mesmo. O vulto continua imperceptível e silencioso.
Lúcio
– Embora tenha lido seus livros, não sei
muito sobre ele. Isto me parece um quebra-cabeça!
Joga as fotos e cartas sobre a
mesa. A câmera segue o movimento. Mostra o rosto de Erich numa foto, algumas
cartas.
Lúcio
–
Preciso me encontrar face a face com ele!
A câmera começa a desfocar os pés
dele e circula pelo apartamento. Um bloco de anotações sobre a mesa; a estante.
Zoom sobre as bordas dos livros emparelhados. Desloca-se para um canto no chão
cheio de camisinhas usadas.
pausa
para releituras do texto
Desisti.
Talvez fosse impossível roteirizar este livro porque existe algo de difícil
acesso/decifração. Lúcio é um cara muito introspectivo, ao ponto de algumas
ideias serem complicadas de se realizar ainda que possivelmente tal
peculiaridade o envolvesse em certo mistério e seria interessante desenvolver.
Relendo
a parte inicial em que Lúcio procura entender o silêncio, o ritmo e a essência
das coisas; ao se transpor isso para o roteiro, corre-se o risco de transformar
este começo num complexo jogo de referências e ilações.
Retorno
à leitura por meio dos capítulos, como se pudesse alinhar as ideias recuperadas
instantaneamente por pequenos recursos. Cada capítulo encerra uma antecipação
dos acontecimentos encabeçados por títulos; assim consigo reescrever a ideia,
mas ainda tenho dificuldades. Devo realmente desistir?
Pausa!
o livro
Persisto/insisto
na ludicidade e plasticidade, e por que não, na emoção do livro A teia de
Germano, quando, lá pela metade do livro, Lúcio enreda suas memórias com outras
histórias de cunho fantástico – Maria, a empregada doméstica, gostava de contar
histórias de monstros e bichos personificados por ações e desejos humanos.
A animação toma de conta da tela. A
baleia azul aparece engolindo garrafas lançadas ao mar e que estão cheias de
sonhos e desejos.
Há uma superposição de
imagens. O menino Lúcio aparece num plano recuado, ouvindo atentamente a voz de
Maria a contar a história, enquanto a animação é mostrada. (páginas 57-62,
Editora Metanoia, 2014)
Quiçá
uma música, não incidental, para criar uma atmosfera infantil ou maternal, não
sei, mas que criasse um ambiente de nostalgia e resgate do mais tenro dele.
Além disso, há uma busca da qual já falei anteriormente, que Lúcio tentar
encontrar indícios de sua origem, vez que fora entregue ao orfanato. A
lembrança dos pais é restrita, mas cheia de memória afetiva – outro motivo para
se adaptar a história, creio eu. Momento oportuno para aproveitar este
mistério, pois Lúcio começa a ultrapassar as linhas entre admiração e identificação
com a vida do biografado. Há uma grande e indisfarçável insinuação de que Erich
seja seu pai, embora nenhuma prova seja evidenciada como real. Esta pequena e
contundente suspeita poderia funcionar bem como argumento para a trama; uma
peripécia – ideia que se torna fixa na cabeça de Lúcio.
Então,
os encontros se dão num bar, por exigência de Erich. Depois de um tempo apenas
lendo cartas, anotações e fotos antigas, Lúcio pôde enfim encontrar Erich para
conhecê-lo melhor. A princípio, a conversa flui com certa dificuldade porque
Erich é um velho verborrágico e beberrão, características que frustram Lúcio.
EXT.
– BAR- TARDE
Erich
recebe Lúcio com um aperto de mão efusivo. Acende um cigarro.
Erich
– Sente-se! Que bom que
você chegou no horário. Com poderia confiar um projeto se fosse relapso com o
tempo?
Lúcio
(Intimidado)
– Não é do meu
feitio!
Erich
(Gritando)
– Garçom, garçom! Mais uma cerveja, por favor!
(Mais um trago no cigarro)
– Bem, diga-me: já escreveu algum capítulo?
Lúcio
– Este é nosso primeiro encontro. Não tive tempo de
ver tudo ainda daquele pacote.
Erich
– Mas está tudo ali. Toda minha vida!
–
Não vê que muita gente queria ter posse daquilo tudo?
Lúcio
(Na defensiva)
–
Eu sou apenas um ghost writer; um
escritor que precisa do dinheiro.
Erich
– E vende seu talento desta forma?
Lúcio
– Antes de mais nada sou seu
profundo admirador, especialmente do livro As ilusões da grandeza humana.
Seria
o momento oportuno de se pensar num artifício para se falar da obra que narra a
vida de Germano (o personagem central desta trama e que enreda todos os
personagens). Pensei em mudar a forma de contar a história e colocar um
narrador que conduzisse os passos das personagens, como que criando o tipo de
cada uma ao longo do filme, depois juntando as peças. Assim poderia sanar
algumas deficiências, que identifico, talvez por pura inexperiência – mais
incapacidade do sustentar o roteiro como planejava do que uma mudança. Estou a
enredar pistas para meu trabalho de pesquisa, lendo livro sobre este mister;
oficinas de grande roteiros publicados e disponíveis na internet. É uma espécie
de experimentação, e o registro funciona como esboço do que ainda quero criar e
não deixa de ser um registro póstumo de minhas tentativas de promover – seria
esta a palavra? – ou divulgar meu trabalho como escritor. Mas acima desta
provável destinação do meu texto roteirizado é a possibilidade de retratar,
retrabalhar o texto numa linguagem mais acessível tanto no aspecto da linguagem
como da inteligibilidade.
Confesso
existir uma dificuldade de transpor estes limites entre a obra e o acesso.
Escrever, para mim, é quase um ato de puro instinto de sobrevivência diante do
mundo real, ele flui de uma forma alheia aos meus eventuais planos de controlá-la.
Faço algo intuitivo na melhor interpretação desta frase: “a história vai se
escrevendo”. Obviamente o texto se autoexplica quando não se procura esta
acessibilidade mecânica.
Tive acesso à literatura de uma forma
peculiar. Poderia dizer que passei do ódio a completa entrega. O ódio surgia de
uma longa lista fixada pelo pai de leitura obrigatória. Lembro-me de ele manter
ao meu alcance u bom dicionário e a gramática do Domingos Pascal Cegalla. Era
assim que deveria ler os livros taxados por ele como bons. Era assim que lia
Machado de Assis, com o apoio de uma logística apurada que me auxiliava na
compreensão estrutural da coisa. Por isso fui levado a crer que deveria sempre
haver uma coisa difícil a ser decifrada. Parecia que existia mais uma coisa a
ser entendida, do que sentida propriamente. E a ideia de meu era que realmente
eu aprendesse a algo das leituras, ficava restrita qualquer sensação de acesso
ou de sentimento da obra, restando apenas a absorção da estrutura, do valor
estilístico.
Já
o amor veio quando pude entender, ou melhor, sentir o texto como mérito de
minha própria disponibilidade ao sentimento, ao estranhamento, à sensibilidade
alcançada, e isso não tinha a ver com entretenimento ou fuga da realidade, mas
como meio de experimentar a própria vida.
de volta ao roteiro
Estou
na busca de um arrepio na espinha, algo que promova este arrepio não somente em
mim, mas para aqueles que leem – esta é a perspectiva de quem cria: causar
alguma reação. Por esta razão, entro num outro assunto: pensar a obra desde o
início até o final. E o final parece orientar o percurso a ser percorrido; a organização
de um roteiro, elencando cenas, os desfechos em cada transição, a dinâmica das
personagens, as peripécias. O final parece tão importante quanto o começo de
tudo, e para um final podem existir vários começos. Que complicação!
Aí
persiste a busca inicial em si: qual a história a ser desenvolvida? A dúvida permanece
na continuidade desta própria escrita. A ideia de criar um filme parece algo a
ser pensado do começo ao fim, e deste ao começo. Há uma real necessidade
epifânica ou inspiração que permitam uma compreensão ou dimensão macrocósmica
de tudo em volta. Não creio que a leitura do filme vem de uma composição
colaborativa de longos brainstormings,
apelando para uma atividade completamente formal. Acredito também no esmeril do
à posteriori, mas o roteirista deve ter algo de místico, do qual seja exigida
verdadeira antecipação do arrepio da espinha, do choro iminente, da tensão, da
catarse, da revelação. Pode haver a discussão destes pontos, mas elas
preexistem como se fossem rabiscos de algo maior. Então, falta-me esta
preconcepção, esta antecipação, este místico. Mas onde estão?
Para
resolver esta situação, volto-me para aquele lado intuitivo que pode deflagrar
o processo. Careço desta dimensão intuitiva que sana os problemas, alivia o
peso daquele iniciante preocupado com a carga de responsabilidade sobre um bom
texto. Mas o que de fato produz um bom texto?
Não
se pode contar com esta intuição ao longo de todo processo; ela pode ser
errática, desnorteadora. A princípio, serve como desencadeador, guia
perceptivo, uma tese a ser desenvolvida, mas que pode redundar em devaneios,
contradições e falsas esperanças.
Todo
mundo precisa de um começo.
limitações
As
ideias fluem, ainda que mais para quem tem planos mirabolantes num estrutura
inicial de um roteiro, que sofre com as limitações do recursos humanos e
materiais.
Em
conversa com o colega Cris Sousa – expert na feitura de curtas e roteiros
premiados – fiquei frustrado por conta das admoestações que ele me fez sobre o
processo prático do filme. O meu roteiro seguia ricamente suas
auto-orientações, seguindo à risca a empolgante narrativa. Eis que a máquina
criativa tem que ser desacelerada. Nem sempre a ideia inicial/final do roteiro
é preservada/definitiva. Na prática a coisa funciona de forma diferente. A
ideia original da animação – a historinha da baleia azula que engole garrafas –
ficou sobrestada por conta destas limitações financeiras que devemos já
incorporar à produção. O roteiro pode sonhar alto, mas tem que ter os pés fixos
na produção. Diante de um parco budget,
e mesmo que seja um robusto, cortes sempre são feitos.
Então,
como sobreviver às limitações supervenientes? Como superar limitações entre os
egos e os orçamentos?
O
esboço deve ser refeito, reanalisado com a determinação para enxergar as ações
de outra forma; mais simples; enxugando as cenas mais elaboradas. Mas devo
sempre pensar numa estrutura reduzida, limitando o potencial criativo?
respostas
Acho
que as respostas se operam numa quantidade de infinitos subconjuntos de
respostas. No entanto, a questão da criatividade pode ser repensada com a
utilização de infinitos recursos.
Para
a alternativa da animação, poder-se-ia gravar diversas frames que contassem passo
a passo a historinha e uma voz em off
narrando-a. Tudo muito rústico, mas lúdico. Poder-se-ia usar também as
massinhas de modelar. Portanto, está superada esta problemática. Pelo menos no
que diz respeito à animação pensada no roteiro original. Porém, ainda subsiste
a finalização do processo.
o roteiro
Recebi
do Cris o link para o download do programa Celtx. Ferramenta interessante para
planejar e criar roteiros de filmes – a bem da verdade é um plataforma apenas
para estruturar o texto. Lá existem vários ícones de auxílio para a preparação
deste roteiro. Mas o trabalho duro continua sendo todo seu. Como este texto
aqui é uma experimentação e de dúvidas que encontrei neste processo, preferi
deixar tudo no meu velho Moleskine.
Acabei
lendo o roteiro do Mágico do Oz que eles disponibilizam nesta plataforma. Não
me senti estimulado a escrever embora queria ver meu texto já formatado ali
dentro.
Ainda
perambulo pelo início da coisa. A escolha mais difícil de fazer.
Preciso
começar de alguma forma esta história que me toma um tempo especial para
ajustar o esboço, o erro. Tentar pelo menos colocar a ideia principal, uma
conversa, um take qualquer. Partir
dele como sempre fiz, por meio dos livros que escrevi, deixando que uma voz
própria pudesse falar aquilo que vai se construindo por uma força narrativa
incontrolável. Mas, mesmo que quisesse, não funcionaria no cinema deixar a
história se escrever sozinha. Soaria bem amador, ingênuo, irresponsável supor
que uma ação se tornasse interessante sem se envolver com ela; pensá-la além de
um impulso inicial; recheá-la com suspense, mistério, drama e deixá-la
intangível.
(...)
Lúcio
é um bom começo. Um jovem ghost writer,
que nunca fez sucesso com seu livro; dividido por duas buscas: a compreensão
das coisas e a busca pelo pai. Então, um misterioso e excêntrico escritor
deseja (paga-o para isso) que sua biografia seja escrita. O livro dentro do
livro, a história dentro da história; protagonista e antagonista; maniqueísmo
da vida. Um vazio como ser humano dependente do referencial alheio, convivendo
com uma crença de que a verdade pudesse definir tudo. E, sobretudo a magia, a
fantasia como meio de acesso. Então, a peripécia, uma reviravolta pra que um
suspense suspenda o ritmo. Uma suposição e, pronto, temos a mudança que orienta
as ilações de Lúcio que quer uma resposta a sua pergunta, um final feliz.
Não
temos aí um roteiro?
Mas
em Lúcio, tem-se uma personagem forte como um filme requer? E neste caminha até
sua fortaleza, temos que simpatizar com ele, criar empatia, sorrir, chorar,
senti-lo como se o fôssemos?
Onde
está o complexo de ações na figura de Lúcio? Lembrei-me de cineastas que
desenhavam seus personagens como pudessem imaginar todas as características.
Como eu vejo Lúcio?
Lúcio
Seria
importante descrever, ou melhor, fazer croquis de Lúcio cena a cena?
Desenhá-lo facilitaria o processo?
Eu
deixava que os leitores desenhassem meu personagens como lhes aprouvesse. Não
me importava com isso. No texto teatral, isto não funciona. Eles tinha que ter
características internas e externas bem definidas. E pelo jeito aqui vai ter
que ser da mesma forma. Será?
Será
que preciso de um fenótipo fiel às características físicas que nem impus ao
personagem? Houve sempre uma essência mais psicológica do que física
propriamente dita. Não me importava se ele era gordo ou magro. Restava-lhe um
caráter inconformado, uma insatisfação com sua vida, a carreira, a vida sexual
e uma perturbação com o passado. Nada mais do que isso.
Eu
precisaria de ator perturbado que pudesse aglutinar as características acima.
Haveria um alívio nas leituras provocadas pela investigação da vida de Erich. A
mudança é patente e promove uma reorientação da postura extrovertida de Lúcio,
que começa a revivê-la como se fosse uma parte esquecida dela.
EXT.-
AUDITÓRIO – TARDE
Erich
está falando sobre o livro ILUSÔES DA GRADNDEZA HUMANA. Na plateia está Lúcio
que o ouve atentamente.
Erich
– Germano era um menino sonhador.
Suas histórias eram cheias de fantasia. Sonhava com sementes aladas, como se
elas fossem pequenas espaçonaves alienígenas.
Lúcio esboça um sorriso
Erich
– Era uma forma de se manter são
dentro daquele orfanato. Seu mundo mágico o livraria da solidão. E mesmo sendo
um adulto, sua imaginação o livraria das Ilusões da Grandeza Humana.
Palmas
esfuziantes.
(...)
Lúcio
Lúcio entrega o
livro para que Erich autografe.
– Sou um grande
admirador de sua obra.
Erich
Enquanto
autografa. Cabeça baixa.
– Leste os
outros títulos?
Lúcio
– Sim. Sim. Li
todos. Por sua causa, tornei-me escritor...
Tira
de sua bolsa a tiracolo um exemplar de seu livro
Erich
– Hum.
Parece-me interessante.
Lúcio
– Sou escritor de ficção, mas ganho a vida
como ghost wtriter. Sabe?
Erich
– Que
interessante... ghost writer...Mas escreve apenas ficção?
Lúcio
–Sim!
Quer dizer, não. Aceito qualquer trabalho.
Erich
– Você
tem um cartão de apresentação?
Lúcio
– Sim,
tenho!
Erich
– Muito
bem! Aqui tem como te localizar, não é?
Lúcio
– Sim.
Todos os meus contatos.
Erich
– Sabe...estava
procurando alguém que fizesse um trabalho sujo pra mim!”
– Espere...não
me interprete mal.
Lúcio
– Como
assim?
Erich
Enquanto
folheia o livro de Lúcio, solta uma risada levemente debochada.
– Quero que
alguém escreva minha biografia!
Lúcio
– É
um trabalho e tanto. Germano seria um capítulo à parte.
Erich
– Germano
nunca existiu. É um menino que vivia de sonhos.
Deixou-se
levar pela grande baleia azul. Nunca mais voltou daquele sonho!
Animação
EXT.
– FIORDE – DIA
Germano (O
menino sonhador)
– Mais uma
garrafa!
Lança a garrafa ao mar a sua
frente. A garrafa afunda momentaneamente. De repente, emerge. Uma forte onda a
empurra contra as rochas. A garrafa se quebra. O papel se prende às pedras.
Atrás dele, um carrinho de mão cheio de garrafas.
INT.
– CASA- NOITE
– Jogo estas garrafas todos os
dias. Elas vão cheias de flores, terras e esperanças nestas linhas, pedindo que
um vento do norte traga meus pais de volta.
Lê
enquanto escreve mais uma carta.
EXT.
– RUAS- DIA
Germano
Germano
bate na porta da casa de uma velha senhora da vila.
– A senhora tem
alguma garrafa com rolha?
Senhora
– Oh! É você
menino!
– Sim, eu tenho
Espera!
EXT.-FIORDE-
TARDE
Germano
– Espero que
esta não afunde ou se quebre!
Lança a garrafa ao mar. Desta vez
mais longe. A garrafa desaparece.
EXT.-
FUNDO DO MAR- DIA
MOBY (a baleia
azul)
– Preciso de
mais daquelas garrafas. Há tempos não sinto mais aqueles sonhos!
A grande baleia azul abre sua boca
para alimentar-se. Acaba engolindo uma das garrafas de Germano. Mas devido as
correntezas marítimas, não sabe de onde vêm as garrafas.
EXT.-FIORDE –DIA
Germano
– E esta: mais esta; e mais esta;
esta gordinha; conhaque, vinho...esta também!
Germano
esvazia seu carrinho de mão que estava cheio de garrafas.
interior
do apartamento. de noite.
Não
consigo mais continuar esta história por conta da estrutura quase de soliloquia
da personagem. Não o quero interagindo com um ser de gênero definido; manter
este personagem vivo como se fosse uma alma solitária. Sei lá.
Criar
cenas com a ausência de diálogos e interações humanas fica cada vez mais
complexo, e não quero procurar por textos ou roteiros parecidos, tampouco quero
usar um longo recurso de narração.
Desistir
parece inexorável. Tentar outro texto parece ainda mais difícil.
Acho
que Urânios pode ser uma alternativa.
Preciso
ver as imagens antes dos textos, como se pudessem preencher os balõezinhos dos
diálogos.
O
processo da indefinição traz consigo as dúvidas de um recomeço. Repensar não
somente a história, mas como fazê-la.
finalzinho de março
Reunião
com o amigo Joe. W. Bridges. Discussão sobre os potos negativos e positivos de
uma parceria num roteiro, que na verdade, é um monte de ideias e muitas
dúvidas.
Enquanto
ele almoçava, contava as histórias de todos os roteiros que tinha em mente. Fiz
basicamente o que tentei explicar no começo deste presente registro. Tentei
contar as histórias priorizando uma dramaticidade, como parte mais convincente,
e uma provável potência fílmica pela não-linearidade, a economia de cenários,
os diálogos enfim uma série de elementos que pudesse aproximar mais este
eventos de um projeto de um curta ou longa metragem.
Em
que pese as histórias narradas, e nas próprias palavras dele, “são histórias
cheias de reviravoltas, ou peripécias na linguagem própria”. Ele ainda
acreditava na história do texto Uma cama quebrada (peça escrita com base no
texto Urânios). Ele já estava sugestionado ou influenciado pela leitura
dramática que fora realizada no ano passado, durante o 23º Festival Mix Brasil,
revelando que havia gostado muito do texto.
Da
dúvida inicial, parti para um campo completamente diferente, vislumbrando
possibilidades dos textos que, intimamente, tento me desvencilhar – tantas
coisas por detrás deste texto. Mas acabo admitindo pra mim mesmo que talvez ele
seja o melhor para que eu invista numa roteirização.
As
imagens vêm como que de imediato, como se a história partisse de mim pronta,
ligeira, inteira. Porém, a grande questão são as escolhas das imagens; quais as
primeiras; quais as preteridas...ter em
mente agora o processo iniciado não é uma garantia de uma boa história, é preciso
estabelecer laços da continuidade, a peripécia; saber se haverá comicidade como
um alívio ao peso do drama – sim, será um drama –, como organizar um começo, um
meio e um final.
Bem,
acho que refleti bastante sobre esta dimensão do novo. Acho que é hora
apenas... de começar.
espaço para uma cama
Havia
saltado esta página (estava escrevendo no meu Moleskine) para anotações
futuras, geralmente faço isso para anotar o que estava ouvindo, lendo naquele
momento – estava “movies of myself” do
Rufus Wainwright. Ele me inspira a escrever.
O
espaço então será usado para expressar a tentativa de início. Este roteiro
seguirá a história de Uma cama quebrada. Embora eu resista por causa de um
processo de memória compulsória que engendra uma série de reminiscências,
histórias do passado vivido, impasses com o presente, mas por uma força da
arte, que deve prevalecer, desisto de tensionar do lado oposto. Certo, não
apenas por conta de uma facilidade. Reescrevo por conta de uma nostalgia que
resgata valores como ingenuidade, o gosto pela liberdade, a expressão da arte
em diversas formas, um tipo e maneira diferentes de se viver o amor, e uma cama
que aprendi a compartilhar.
Então,
o começo!
Cena
I, tomada I, primeira parte!
EXT.
-VARANADA – NOITE
É
noite. Três homens deitam debaixo de um céu enluarado. Cabeças sobre pernas,pernas
sobre pernas. O destino estava escrito
nas estrelas.
(...)
Pensei
em usar a referência aos textos (falas) da peça de teatro, mas esta referência
necessitaria de explicações – como o mito das greias – então começaria com uma
cena um tanto quanto difícil (seria o cinema uma linguagem fácil?). Três homens
com olhos vendados, brincando de adivinhar, seria uma alternativa para usar o
texto original sem modificações?
A
ideia de reescrever o roteiro, ad
infinitum causa-me tanta angústia por conta de uma constante percepção de
alteração. Portanto, seria uma opção redesenhar a primeira cena, colocando-os
em confronto ou em choque entre desejos intensos, mas díspares? O diálogo que
antes envolvia uma ingenuidade e um apelo ao mito, poderia se substituído por
uma conversa mais amena, lidando com antecipações, angústias, problemáticas
próprias de três homens que assume diante das estrelas, o compromisso do amor
eterno?
EXT.-VARANDA-NOITE
Com a cabeça sobre a perna de
Dinho, Pedro começa um diálogo sobre uma música que recordara. Momento para
discussão de expectativas.
Pedro
– Tem uma música que gosto muito e diz assim:
“Starting giving me something, A love that is longer
than a day...”
– Algo do tipo: Comece me dando alguma coisa, algo que
seja mais longo que um dia… Vocês acham que isso que vivemos demoraria mais do
que um dia?
O
resto da história segue o roteiro do livro Uma
cama quebrada.