Eu sempre queimava papeis; meus
papeis amarelos. Era uma forma de expiar meus pensamentos que, àquela época,
eram proibidos. A culpa de quebrar as regras do jogo parecia o motivo maior
deste medo. O fogo terminava com tudo aquilo que não se podia falar. Woody
Allen trouxe esta lembrança no seu Roda
Gigante, no Inglês Wonder Wheel, o que nos dá uma outra versão alegórica do
que é esta roda da vida; que no eleva, ora maravilhados, ora assustados com
suas voltas. E é bem isso que é mostrado da nada classuda, mas sonhadora Ginny,
que outrora vivera papeis dramáticos em alguns palcos como atriz iniciante, mas
não pôde se profissionalizar. Não é nada classuda, porque que me refiro à Cate
Blanchett, de Blue Jamine, personificando a decadência de uma mulher refinada
que perdeu toda sua referência ao ser abandonada pelo marido. Pois é difícil se
desvencilhar das comparações, vez que Allen coloca estas mulheres no centro de
uma roda gigante da vida.
Se antes tínhamos uma narrativa
fragmentada pelo tempo, aqui conhecemos uma mulher na sua rotina, completamente
linear, presa (ou parada na parte mais baixa da roda gigante) a um casamento em
que a felicidade nunca fora atingida nesta constância. Ginny segue sua vida
como garçonete; mãe de um menino – de um outro casamento, em que traiu o marido
– com problemas emocionais (piromania ou algo do tipo) e o relacionamento com o
atual marido, vivido por Jim Belush (irreconhecível), que nunca a fizera
atingir o ponto máximo da roda gigante da vida. Esta se encontra enferrujada.
Então Ginny começa a trair seu marido com o salva-vidas Mickey.
A roda começa a girar. As coisas
começam a sair do estado de estagnação. O amor é sempre algo motivacional.
Allen aprofunda esta percepção trazendo os diálogos para um paralelo às obras
de Shakespeare e Eugene O’neill – nem tanto as obras em si, mas os processos
desencadeadores do fatal flaw. Será
que somos responsáveis por estes comportamentos destrutivos?A certa altura Kate
Winslet (que tem uma atuação de entrega e desenvoltura excpecionais) pergunta
se a nossa tragédia fatal pode ser causada por nós mesmos ou é destino. A reposta
vem pelo empirismo fajuto do salva-vidas, interpretado por Justin Timberlake, que
sonha em ser escritor.
Nada de novo em Woody Allen: as
personagens se envolvem em relacionamentos amorosos muito intensos ou
impossíveis. Ginny não poderia ser diferente, nem fugir de uma certa loucura à
lá Jasmine. Ambas se perderam as rédeas de suas vidas por se entregarem ao
amor, seja ele duradouro ou apenas uma paixão. Parece-me que Allen não deixa
nenhuma possibilidade de saída para estas mulheres. Esta então, não tem nenhuma
escapatória pois uma espécie de maldição ronda sua vida. O amor e a paixão por
Mickey turvam sua realidade, tanto que Allen cria uma cena, quase no
finalzinho, em que Kate parece estar finalmente encenando sua própria história
trágica. A cena é de uma sensibilidade ao misturar estas instâncias entre a
realidade do filme e brincar com nossa imaginação. Ginny coloca uma roupa
especial para encenar sua primeira e única cena, mesmo que não saibamos se ela
estava num diálogo ou contracenava com Mickey.
Mas assim como o amor é mola
propulsora das grandes tragédias, o ciúme também o é. Por isso, nesta trama de
Allen, o ciúme shakespeariano (Otelo) desestrutura Ginny, que parece perder o
amor do salva-vidas pela jovem Carolina, sua enteada. Temos então personagens
com vidas simples, a lá O’neill, mas que sonham grande.
A roda de Allen começa então a
girar em com pequenos solavancos, ainda o ciúme parece ser o grande propulsor.
Ginny vê-se numa história que se repete, como se estivesse de fato vivendo em
círculos, enredada pelos desígnios de sua maldição. A roda então continua a
rodar, agora com velocidade máxima, levando todos ao ápice desta história.
De volta a sua rotina com o
marido, depois de ser abandonada pelo salva-vidas por conta de sua enteada e
ter sutil e indiretamente engendrado sua vingança, nada parece ter mudado na
vida daquela mulher que vive os altos e baixos de uma roda gigante fadada a
parar.


Nenhum comentário:
Postar um comentário