quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Me chame pelo seu nome (Livro de André Aciman)



Confesso que chorei em duas ou três páginas do livro de André Aciman, Me chame pelo meu nome.

Mas vamos começar pela capa, na qual se sobressai a figura estilizada de um pêssego, que é recorrente nas falas de Élio – um símbolo carregado de lascívia e metonímia. E parece ingênua esta comparação que Élio faz ao longo da urdidura. E este recurso de pensar sobre tudo que acontecia, de uma forma racional e passional contraditoriamente, era a reverberação de sua conduta inicial para todas as sensações causadas pelo estrangeiro, cowboy, Oliver.

Chega a irritar a indiferença despropositada de Élio para com o hóspede, pois além de este roubar-lhe o quarto, também roubara-lhe o autocontrole. Mas é natural – e este processo é adquirido com o exercício de empatia com a personagem do jovem menino – pois é próprio da natureza pueril estas dificuldades em entender o corpo e o desejo pelo outro.

O relato autodiegético é uma característica usada para tentarmos entender a dúvida que se aninhava dentro dele. Da completa indiferença inicial, passamos para uma ligeira obsessão pelo cheiro, pelo contato, pela entrega. El vai aos poucos cedendo ao curso natural de seu desejo, embora ele utilize artifícios (embora a timidez seja o mais provável no começo) um tanto quanto improváveis para quem está com os hormônios dilatando-se na pele. Às vezes, ficava em silêncio do lado de Oliver apenas para ter a sua companhia, mesmo que rodeada do silêncio. Outro recurso estilístico utilizado pelo autor é a constante suposição de acontecimentos que Élio ora ficava criando, ora sonhando. Confesso que toda estes artifícios foram desenvolvidos pela narrativa de Aciman com o esmero e cuidado de propiciar esta atmosfera de dúvida, onírica e platônica.

Por muitas vezes, a leitura fica um pouco arrastada. A consciência de Élio é povoada por um continuum de tentativas mentais frustradas; até que ele desafia o próprio medo e acaba descobrindo que o jogo de sedução ou ingenuidade, há tempos tinha sido descoberto. Oliver também tinha medo, porque justamente não seria capaz de lidar com aqueles sentimentos que afloraram no verão italiano. O calor como o deflagrador das paixões, a viagem geográfica como lastro para a permissividade.

Mas parece que estamos falando de uma paixão a la pederastia Grega, na qual um homem bem mais madura tinha a tutela de um mancebo. Mas não, a diferença deles é de apenas 7 anos. Élio tem 17 e Oliver 24. Mas estas diferenças não retiram de Oliver a capacidade de brincar, de ser alegre e completamente sedutor. Quando eles se descobrem amantes, tudo tem um quê de descoberta e eternidade.

As quatro partes em que o livro se divide revelam bem a história deste pequeno Bildungsroman. Acompanhamos a maturação do pêssego ao mesmo tempo em que percebemos que as experiências sexuais de Élio o tornam mais cientes do prazer, mas ao mesmo tempo vinculado a figura de seu amante. A sensação que temos é de que fazemos escolhas determinantes na adolescência e nos apegamos demais aos nossos desejos. Mas até que ponto é justo ou correto esperar?

Eu confesso que chorei, porque a questão da identificação foi imediata: os diários, a companhia dos livros como referenciais do mundo; a arte como elemento de estilização dos pensamentos; o desejo velado sobre os homens mais maduros; os medos e dúvidas e sobretudo a impetuosidade do amor. Muitas coisas me afastaram de Élio no começo, mas no final acabou que repeti o meu nome várias vezes. Mas quem será que repetia o dele?

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