quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Dream Boat


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DREAM BOAT ( 2017, Tristan Ferland Milewski) não é um filme sobre hedonismo e o estilo de vida gay, é muito mais sobre esse microcosmo por eleição. Ele mistura três elementos bastante interessantes neste filme documentário: a juventude (não em si, mas a premissa dela), o amor e a liberdade. E estas três instâncias misturadas neste passeio ultramar ora se alternam, ora se digladiam. Em geral, o filme acompanha a festa no navio Dream Boat, num de seus cruzeiros ao mediterrâneo. Lá estão em destaque cinco gays que, cada um ao seu modo, tem expectativas diversas entre si, mas que buscam, de certa forma algo em comum. O navio e suas dimensões ultranacionais parecem criar um espaço de liberdade: esta é a melhor palavra para definir o primeiro momento. O filme passeia pelas cabines do cruzeiro e vai custurando as vidas de
Dipankar (gerente de contas em Dubai); Marek (polonês que mora na Inglaterra); Martin (Fotógrafo alemão que convive com o HIV); Phillippe e Deny(um casal francês) e Ramzi (um muçulmao ativista lgbt).



O filme não é um registro fiel ao hedonismo gay, retratando as práticas e os momentos de intimidades - embora em algumas cenas a gente entenda por que o sentido de liberdade é levado ao extremo - mas ele recorta os anseios destas personagens, que, de alguma forma, conseguem performar e desenvolver sua sexualidade temporariamente sem preconceitos, sem interditos ou convenções sócio-políticas. A bem da verdadem, os lugares de perfomação da sexualidade como navios e internatos, são espaços importantes para se observar o comportamento humano. Mas estamos falando de espaços de manifestação sexual específica, onde o discurso libertário se traduz em vestuário, música e corpos.
Eu imaginava um retrato mais glamourizado, vez que o diretor acompanha um caríssimo cruzeiro rumo ao meditarrâeno. No entanto, ao apontar cinco personagens neste universo, ele contextualiza todos os aspectos subjetivos, emocionais e sociológicos desta escolha.

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Martin, Marek e Dipankar


Dipankar é um indiano que tem problemas com sua forma física, e percebemos ainda um complexo de inferioridade por conta de sua ascendência e origem. O filme estabelece uma nuance bem nítida de sua diferença dentre os corpos sarados, brancos e masculinizados. Isso tudo revela aspectos interessantes da cultura gay hedonista. Em determinado momento Dipankar afirma: " O que é necessário nestas festas é ter uma bunda boa e um pau grande".
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Marek é um jovem polonês que tem problemas com sua família em questão a se assumir gay. Está no estereótipo do gay masculinizado (explico que são estas as visões internas e externas das personagens, como elas se veem e como são vistas) e busca insessantemente um amor correspondido. Durante o cruzeiro ele participa de todas as festas, mas não consegue o total entrosamento, pois imagina que a pessoa que encontrar ali seria a ideal para conciliar amor e sexo.
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Martin é mantido de certa forma escondido pelo diretor. Talvez seja uma escolha. Recolhe apenas alguns depoimentos, e por isto não somos capazes de saber o que ele busca no cruzeiro. Então, ele aparece beijando outro cara, que se mantém nas outras images, e depois delas, o diretor colhe um singelo e nada perturbador depoimento sobre sua convivência com o vírus do HIV: "Nos primeiros encontros eu não falava e pedia para usar a camisinha. Agora, eu falo: eu tenho HIV, vamos usar a camisinha. E depois assumi outro discurso: eut tenho HIV, lide com isso!".
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Phillippe e Denys são o casal do filme, no qual a relação monogâmica é mantida por vinte anos. Phillippe é cadeirante e Denys usa muletas. A primeira impressão é de que a relação se estabelecera por conta de suas características em comum, mas acabamos descobrindo que a relação é mantida há muito mais tempo por outras razões.
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Ramzi parece ter de fato um problema, pois é palestino e muçulmano, sendo desnecessário apontar os motivos pelos quais o cruzeiro é o palco de sua real performatividade e sexualidade.
Este breve resumo serve para criar a atmosfera que circula neste navio e reforça as escolhas do diretor sobre sua perspectiva antropológica de criar um mosaico distoante de qualquer definição do que seja; para que serve ou ainda qual o objetivo de cruzeiro gay.

Nos comentários abertos ao público, na página da Netflix, muita gente depreciou o filme pelas escolhas do diretor, dizendo que o filme é vazio (o recorte é um cruzeiro de bichas brancas, europeias e ricas) e não retrata a realidade de gays pobres (ou marginalizados) e qual a real necessidae do registro fílmico. Bem, eu olhei além dos prováveis recortes e antecipações que eu pudesse ter feito. Entendo que o filme é de extrema importância porque espelha a nossa cultura hedonista e libertária. Porém, ao mesmo tempo, registra o microcosmos de uma possibilidade ontológica: de se conviver com as diferenças; bem como de incoporar elementos de diversas culturas (embora estejamos celebrando um estilo de vida comum) dentro de nossas experiências de vida e ainda, a consolidação de um humanismo não-sectário. Pelo menos este é o discurso.

2 comentários:

  1. Acabei de assistir o filme, curti muito. Vou citar essa sua excelente análise na postagem que estou fazendo sobre o filme no meu Blog.

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