O título: Os iniciados cai bem
para esta história. Para o novo parecemos sempre iniciados, como se a
trajetória para a experiência de vida mais madura não prescindisse de uma
orientação prévia. E quando a orientação
prévia vem ditada pela cultura e tradição de um povo, fica difícil
confrontá-la. Mas é na rebeldia que o jovem Kwanda, o iniciado, vê-se na obrigação
da continuação da tradição, da sua cultura e da sua própria estirpe.
Estamos falando de povos
africanos que ainda mantém seus rituais de passagem Ulwaluko, que consistem na
circuncisão de adolescentes de origem Xhosa. Nestes rituais, jovens são
submetidos a sacrifícios e o mítico corte do prepúcio.
Para registrar o corte com a
cultura oral e tradicional, Kwanda é representação de uma África colonizada
pelos brancos; menino mimado pela mãe, consumidor da cultura americana e
citadino. Estamos falando de Johanesburgo, capital da África do Sul, que para
muitos africanos é (desculpe o cacófato) a meca gay – literalmente refúgios
para uma experiência homoafetiva bem diferente da enfrentada nos países do
continente. O casamento gay fora aprovado neste país desde 2006.
Mas estamos falando de um pai, que
desconfia que as tradições de seu povo serão quebradas a partir da geração de
seu filho Kwanda. Este jovem contesta o ritual, mas participa a contragosto,
enfrentando de certa forma a ritualística com seu discurso contestador. Seu
pai então solicita a ajuda de um sobrinho, Xolani, que mora na cidade e que
também fora iniciado no ritual e se tornou uma espécie de cuidador (termo usado
para os mentores do ritual).
A questão que enfrentamos neste
filme, bem na sua metade é a necessidade de manutenção destes rituais e da
hipocrisia que se estabelece, pontualmente, entre os cuidadores dos iniciados.
Tal como observamos em Brokeback Mountain, temos um casal em conflito com seus
desejos. No filme de John Trengove, as personagens lutam contra a própria ascendência da cultura oral e das tradições do seu povo. O
casal referido trata-se de Xolani, cuidador de Kwanda, e o veterano cuidador
Vija. Disse a lá Brokeback Moutain porque eles repetem a forma como os
protagonistas do filme faziam: amor e ódio; desejo e repulsa; tradição e
liberdade eram elementos de tensão entre suas existências.
Ao longo do filme, contamos com
atuações bem satisfatórias, que revelam a dramaticidade de cada personagem durante
as semanas do longo do ritual que Kwanda, o contestador – para não usar a
palavra gay, pois seria limitadora. Desnecessário dizer que o ritual eleva o
jovem à categoria de adulto. Mas aí reside a dialética do discurso tradicional
de Xolani e seu iniciado Kwanda. E tudo se exaspera quando a hipocrisia de
Xolani – por extensão de toda ritualística da tradição – é confrontada quando
Kwanda testemunha uma cena de intimidade entre o sensível Xolani e o truculento
Vija.
O flagrante deixa-os à mercê de
Kwanda, que confirma suas convicções sobre a necessidade do ritual, vez que
numa cena anterior foi capaz de matar uma cabra com a coragem e a força que os
outros iniciados não tiveram. Portanto, cercado destes elementos que justificam
repensar a tradição, obviamente os mentores atribuem a resistência do jovem gay
ao insidioso mundo branco da capital, o filme vai nos levando a pensar e sentir
pelas peles destes três personagens e a escolha de cada um diante da
possibilidade da liberdade. Infelizmente, nossas expectativas podem ser
frustradas pelas escolhas que eles fazem.
É um filme de belas paisagens
naturais, que revelam as ligações telúricas de um povo e suas tradições, mas
que faz refletir sobre a aculturação e a ingerência do branco sobre o modus
vivendi do negro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário