terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Os iniciados (o filme)


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O título: Os iniciados cai bem para esta história. Para o novo parecemos sempre iniciados, como se a trajetória para a experiência de vida mais madura não prescindisse de uma orientação prévia.  E quando a orientação prévia vem ditada pela cultura e tradição de um povo, fica difícil confrontá-la. Mas é na rebeldia que o jovem Kwanda, o iniciado, vê-se na obrigação da continuação da tradição, da sua cultura e da sua própria estirpe.

Estamos falando de povos africanos que ainda mantém seus rituais de passagem Ulwaluko, que consistem na circuncisão de adolescentes de origem Xhosa. Nestes rituais, jovens são submetidos a sacrifícios e o mítico corte do prepúcio.

Para registrar o corte com a cultura oral e tradicional, Kwanda é representação de uma África colonizada pelos brancos; menino mimado pela mãe, consumidor da cultura americana e citadino. Estamos falando de Johanesburgo, capital da África do Sul, que para muitos africanos é (desculpe o cacófato) a meca gay – literalmente refúgios para uma experiência homoafetiva bem diferente da enfrentada nos países do continente. O casamento gay fora aprovado neste país desde 2006.

Mas estamos falando de um pai, que desconfia que as tradições de seu povo serão quebradas a partir da geração de seu filho Kwanda. Este jovem contesta o ritual, mas participa a contragosto, enfrentando de certa forma a ritualística com seu discurso contestador. Seu pai então solicita a ajuda de um sobrinho, Xolani, que mora na cidade e que também fora iniciado no ritual e se tornou uma espécie de cuidador (termo usado para os mentores do ritual).

A questão que enfrentamos neste filme, bem na sua metade é a necessidade de manutenção destes rituais e da hipocrisia que se estabelece, pontualmente, entre os cuidadores dos iniciados. Tal como observamos em Brokeback Mountain, temos um casal em conflito com seus desejos. No filme de John Trengove, as personagens lutam contra a própria ascendência da cultura oral e das tradições do seu povo. O casal referido trata-se de Xolani, cuidador de Kwanda, e o veterano cuidador Vija. Disse a lá Brokeback Moutain porque eles repetem a forma como os protagonistas do filme faziam: amor e ódio; desejo e repulsa; tradição e liberdade eram elementos de tensão entre suas existências.


Ao longo do filme, contamos com atuações bem satisfatórias, que revelam a dramaticidade de cada personagem durante as semanas do longo do ritual que Kwanda, o contestador – para não usar a palavra gay, pois seria limitadora. Desnecessário dizer que o ritual eleva o jovem à categoria de adulto. Mas aí reside a dialética do discurso tradicional de Xolani e seu iniciado Kwanda. E tudo se exaspera quando a hipocrisia de Xolani – por extensão de toda ritualística da tradição – é confrontada quando Kwanda testemunha uma cena de intimidade entre o sensível Xolani e o truculento Vija.

O flagrante deixa-os à mercê de Kwanda, que confirma suas convicções sobre a necessidade do ritual, vez que numa cena anterior foi capaz de matar uma cabra com a coragem e a força que os outros iniciados não tiveram. Portanto, cercado destes elementos que justificam repensar a tradição, obviamente os mentores atribuem a resistência do jovem gay ao insidioso mundo branco da capital, o filme vai nos levando a pensar e sentir pelas peles destes três personagens e a escolha de cada um diante da possibilidade da liberdade. Infelizmente, nossas expectativas podem ser frustradas pelas escolhas que eles fazem.

É um filme de belas paisagens naturais, que revelam as ligações telúricas de um povo e suas tradições, mas que faz refletir sobre a aculturação e a ingerência do branco sobre o modus vivendi do negro.

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