Um instinto maternal mais de
culpa do que de amor – na minha opinião, e aqui vai um ligeiro spoiler – é o que
move Mildred Hayes (Fances McDormand) a colocar os famigerados outdoors na
pequena cidade de Ebbing, no Missouri. Quantas vezes precisamos de bodes
expiatórias para expiar nossos próprios...”pecados”. Mas a história de Três
anúncios para um crime não envereda por este viés cristão, embora a cena de
Mildred avocando um direito para si, resgatando uma prática de lealdade entre
gangs da Califórnia, deixa a hipocrisia do Padre da cidade escancarada nas suas
palavras. O ponto e o alarde do filme, bem como a premissa do próprio filme, é
de uma mão que faz de tudo (nem tudo talvez) para que as autoridades locais
encontrem o assassino de sua filha.
Admito que Frances cria uma genuína
atmosfera de revolta e sede de justiça. Não sei porque me incomoda aquele
macacão azul que ela usa por dias e dias. Mas o fato é que percebo uma mudança –
o tal do arco dramático – mais no personagem do Sam Rockwell, que interpreta o
oficial atrapalhado e preconceituoso Jason Dixon, que muda sua sólida
construção humana para um agente altruísta e sensível. Momento importante para falar das lindas
cartas, como intervenção dos elementos de peripécia, nas quais o Delegado elide
algumas dúvidas. E seguindo o conselho do velho amigo Dixon, por sorte e
inteligência parece ter resolvido todo o mistério sobre o assassinato. Eu acho
que o filme é do Sam Rockwell porque foi na dificuldade e no momento mais
extremo de sua vida, quando ele demonstrou quem realmente era.
Para mim, o filme é sobre erros e
perdão. Essa dinâmica que move o mundo. Os encaminhamentos todos demonstram
esta tensão. A dor da perda da mãe e justa, mas é relativizada – não sei se
propositadamente – pela cena em flashback do fato de antes de tudo (o crime e a
repercussão dos outdoors), mãe e filha têm uma discussão verborrágica e
premonitória.
O filme também tem um espaço para
relatar a vida quase parada da cidade, em que as pessoas parecem viver
confinadas numa bolha que as separou do mundo. Um círculo enfadonho de papeis já
desempenhados e repetidos ao longo do tempo. Os três anúncios tiram, na
verdade, todo mundo daquela apatia existencial. Quando notamos mudanças em
algumas personagens, elas beiram uma aparente loucura, um estranhamento e quase
um excêntrico jogo embaralhado de sensações.
O final me fez pensar que estamos
meio que perdidos nas nossas funções diárias e que precisamos sair da bolha.
Ainda estamos movidos pelo erro ou pelo perdão.



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