domingo, 25 de fevereiro de 2018

Três anúncios para um crime




Um instinto maternal mais de culpa do que de amor – na minha opinião, e aqui vai um ligeiro spoiler – é o que move Mildred Hayes (Fances McDormand) a colocar os famigerados outdoors na pequena cidade de Ebbing, no Missouri. Quantas vezes precisamos de bodes expiatórias para expiar nossos próprios...”pecados”. Mas a história de Três anúncios para um crime não envereda por este viés cristão, embora a cena de Mildred avocando um direito para si, resgatando uma prática de lealdade entre gangs da Califórnia, deixa a hipocrisia do Padre da cidade escancarada nas suas palavras. O ponto e o alarde do filme, bem como a premissa do próprio filme, é de uma mão que faz de tudo (nem tudo talvez) para que as autoridades locais encontrem o assassino de sua filha.



Admito que Frances cria uma genuína atmosfera de revolta e sede de justiça. Não sei porque me incomoda aquele macacão azul que ela usa por dias e dias. Mas o fato é que percebo uma mudança – o tal do arco dramático – mais no personagem do Sam Rockwell, que interpreta o oficial atrapalhado e preconceituoso Jason Dixon, que muda sua sólida construção humana para um agente altruísta e sensível.  Momento importante para falar das lindas cartas, como intervenção dos elementos de peripécia, nas quais o Delegado elide algumas dúvidas. E seguindo o conselho do velho amigo Dixon, por sorte e inteligência parece ter resolvido todo o mistério sobre o assassinato. Eu acho que o filme é do Sam Rockwell porque foi na dificuldade e no momento mais extremo de sua vida, quando ele demonstrou quem realmente era.


Para mim, o filme é sobre erros e perdão. Essa dinâmica que move o mundo. Os encaminhamentos todos demonstram esta tensão. A dor da perda da mãe e justa, mas é relativizada – não sei se propositadamente – pela cena em flashback do fato de antes de tudo (o crime e a repercussão dos outdoors), mãe e filha têm uma discussão verborrágica e premonitória.

O filme também tem um espaço para relatar a vida quase parada da cidade, em que as pessoas parecem viver confinadas numa bolha que as separou do mundo. Um círculo enfadonho de papeis já desempenhados e repetidos ao longo do tempo. Os três anúncios tiram, na verdade, todo mundo daquela apatia existencial. Quando notamos mudanças em algumas personagens, elas beiram uma aparente loucura, um estranhamento e quase um excêntrico jogo embaralhado de sensações.


O final me fez pensar que estamos meio que perdidos nas nossas funções diárias e que precisamos sair da bolha. Ainda estamos movidos pelo erro ou pelo perdão.

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