quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A linguagem secreta do cinema de Jean-Claude Carrière


Por que sempre que a imagem de um carro ou uma pessoa correndo ou caminhando, em sua maioria, parte da esquerda para direita? Por que igualmente somos todos destros? Por que somos exímios escritores ao escrever uma carta, ao discar um telefone, que sempre funciona prontamente? Por que o táxi nunca dá troco? - talvez com o UBER isto tenha mudado.
Estas e outras tantas perguntas estão nesta tradução do original em Inglês: The secret language of film  do original de Jean-Claude Carrière.
São perguntas que, inicialmente, tornam-se bobas, se pensarmos o quanto o cinema se aproximou e se distanciou de nossa realidade; tanto que as novas"ondas" iam se sobrepondo ou tomando de conta das novas formas de se filmar ou captar a realidade. Mas nos grandes manuais de roteiro, esta realidade camuflada parece ainda um recurso para ludibriar nossa consciência do cinema, de como o cinema opera um consciente coletivo de imagens e de percepções. Carrière nos dá várias amostras de como o cinema  nos concedeu uma verdadeira gramática de estilos e jogos cênicos, que ao longo dos tempos vamos traduzindo e criando uma sintaxe coletiva de interpretação. O olhar, diferente daqueles desacostumandos com a experiência do cinema - ele registra as sessões de cinema nos idos de 1970 em algumas partes do norte da África (Argélia) em que as pessoas não entendiam algumas funções como o zoom que aumentava o tamanho das coisas, como exemplo ele cita a mosca que ganhou uma projeção de irreal por conta de seu tamanho. Esta capacidade do filme de nos apresentar o novo, qualquer que seja seu propósito, educativo ou de entretenimento, promove estas alterações perceptivas entre realidade e ficção.
O autor continua na sua tentativa de nos convencer de que o cinema tem esta mistificação das coisas, pois as aproximam de um ideal que às vezes beira o impensável e o compara com as possibilidades do teatro, bem mais humano e palpável neste sentido da criação; embora o teatro não necessite, como ele cita num exemplo, de elefantes com trombas ensanguentadas para criar a atmosfera no palco. Por outro lado, o cinema, não pode prescindir das grandes cenas e dos recursos mais sofisticados para criar as cenas e sua proximidade com o real. Neste quesito, o único problema do cinema seria ainda a impossibilidade de permitir que sentíssemos o cheiros das coisas, dos ambientes.
Ao longo do livro, esta alternâncias de ausência e presença são sempre colocadas em questão; o que se pode fazer e o que não se pode fazer; o irrealizável e o futuro das tecnologias. O cinema aqui é pensando neste eterno jogo de satisfazer nos mente embotada, acostumada ou condicionada a este prazer da mentira e da invenção.
Outros assuntos são veiculados, como alguns cineastas ou mesmos outros artistas encaram a produção de imagens tanto pelo cinema, quanto pela televisão. Neste quesito, ele tenta resgatar em tom nostálgico a magia do cinema, em que a cena, que antes se via com certo vagar, quase que coladas uma foto a outra, e que a televisão e a velocidade das imagens nos tornou donos do jogo - controle remoto em nossas mãos -, pois dentro da câmara escura do cinema, ficamos rendidos pela grande tela e pela poeira iluminada sobre nossas cabeças.
Ainda estou descobrindo o verdadeiro sentido do livro, aquele propósito de usá-lo em minhas aprendizagens. E nesta busca, eu percebo que o livro serve para nos relembrar de como esta arte é fascinante, de como ela muda; de como ela intercambia com as outras artes e como podemos percebê-la menos como uma jogo e mais como uma brincadeira coletiva.

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